O frio exige aconchego, mas isso não deve inibir que, mesmo que se tenha de andar na rua, seja colocada em causa a elegância e feminilidade.
Assim, para dias como o de hoje, enevoados e algo húmidos e traiçoeiros, sugiro que uses um vestido de malha fina, cor de cinho, a abraçar-te sem exibir, quente como um segredo bem guardado, com aquela simplicidade traiçoeira que parece calma por fora, mas vibra por dentro.
A malha tem aquele caimento suave que dança com o movimento, sem pressa. Por cima, aposta num casaco de fazenda azul-marinho fechado até onde te apetecer, rígido e elegante como uma linha escrita a régua. O contraste de cores dá-te uma aura de noite antecipada, discreta, mas cheia de presença.
Por baixo usa uma lingerie minimalista e confortável, sem dramatismos: um conjunto simples em tom nude ou borgonha, sem rendas exuberantes, só linhas lisas e limpas. Aquelas peças que quase esqueces que tens, e é assim que devem ser, cumplicidade silenciosa, nada mais.
Como acessórios, aposta nuns brincos pequenos em prata, só para captarem a luz de vez em quando. Uma malinha estruturada preta, discreta, quase severa, para equilibrar o lado mais macio do vestido. Umas meias opacas pretas, a trazer coesão e calor. Botins de salto médio; nada que grite, mas o suficiente para o teu andar ter aquele leve compasso de poesia urbana.
Ficas com um conjunto que respira inverno, mistério e intenção. Tudo está ali… mas só para quem souber olhar.
Hoje a minha melhor amiga faz novamente anos... É curioso porque nela, o tempo parece andar sempre para trás. Se a conhecessem, saberiam que não estou a exagerar.
Ainda há pouco a vi naquele vestido rosa que tanta azia me faz por não estar pendurado no meu closet. Seja como for, a distância que nos separa dilui-se na sinceridade dos desejos de que este dia seja para ela tão especial, como é para mim.
Com o aniversário dela, veio também a primavera. Como não podia deixar de ser...
Para qualquer ser humano, o início de um novo ano vem sempre atrelado com desejos eufóricos, confessões de anseios e com exercícios de interiorização, mais ou menos velada, de novas metas e motivações. Pessoalmente, aquilo que ainda me move, após as doze badaladas, é o mesmo de sempre. Ultimamente, Reveillon após Reveillon, não tenho nada a acrescentar, algo a pôr ou a tirar ao já habitual desfile das minhas pequenas verdades secretas, mas que, sendo apenas uma ou duas, são essenciais para que a minha vida seja vivida realmente em plenitude.
Não foi uma escolha pessoal minha ter nascido e crescido com determinadas caraterísticas intrínsecas ao meu eu e que não são, admito, fáceis de serem confortadas e experienciadas em plenitude, tendo em conta todas as outras circunstâncias que definem o mundo em que vivo, conscientemente e por opção própria. Quantos de nós vivemos uma vida dita normal e temos, em simultâneo, um catálogo mais ou menos vasto, de desejos reprimidos? Que mal é que isso tem?
Tenho a firme impressão, absolutamente inquietante, que à medida que os anos passam, o relógio acelera o seu passo. Essa sensação de que o tempo acelera ao mesmo tempo que ficamos menos novos, deve-se, claramente, a algo indesejável, uma combinação letal entre a rotina a que não podemos fugir, fruto da necessidade quase primária que todos temos de nos abrigar numa profissão e nos direitos e deveres que a mesma impôe para termos os meios materiais necessários ao sustento básico e o comodismo provocado, quase sempre, pelo medo.
Penso que já confessei uma vez neste espaço que cada vez acredito menos em milagres. Reforço essa certeza, com a constatação de cada vez me sentir mais só e abandonada, nos meus desejos e na eventual ajuda externa que possa vir a ter para a realização dos mesmos. Como eu gostava que esta realidade fosse diferente... Mas isso não depende só de mim, claramente. E às vezes parece tão fácil.